Um dia para se recordar

•fevereiro 14, 2009 • 1 Comentário

Era o início de uma manhã ensolarada de verão. O desânimo tomava conta de meu corpo e minha alma. Nesse dia levantei com o grande desejo de que ele passasse bem rápido, que pudesse se tornar, tão breve, apenas uma velha lembrança na minha mente cansada. Lutei contra a preguiça e o cansaço. Cansaço, este, que misteriosamente me surgira como um vento atravessando as frestas da janela; acho que era mais mental do que físico. Só podia ser. Eu não havia feito nada de trabalhoso no dia anterior. Prefiri não tentar me entender, pois aquilo tudo só me deixava mais perdido nos meus pensamentos.

O dia se arrastou como um peso em minhas costas. Os raios de sol que tive que encarar na rua foram fatais para minha visão. Ainda que meus ouvidos captassem tudo que se passava em volta, eu parecia estar surdo… pois não compreendia – e não queria – o que chegava a minha mente. Parecia tudo tão estranho, o som parecia ter assumido uma posição totalmente disforme. Passei a crer que eu era capaz de controlar meus sentidos e descobri que não eram tão involuntários assim.

Segui em minha caminhada pelo resto da tarde. Ao pôr-do-sol, comecei a me sentir melhor. Quando apreciei aquela combinação harmoniosa de cores que se confundiam no horizonte, foi como um alarme que despertou meu espírito e uma paz indescritível tomou conta de mim. Repousei meu corpo sobre os grãos de areia quentes de uma praia. E olhei… olhei para frente, para a vida, para o futuro… Meus olhos seguiram o sol ininterruptamente, até ele desaparecer na linha do horizonte. Depois fiquei ali sentado. Pensando… Cheguei a conclusão de que aquele era mais um dia, mas não um dia qualquer. Aquele, em especial, me fizera sentir mais forte, me dera o hálito da esperança e o sabor da paz.

Levantei e caminhei. Deixei a água, ainda morna, tocar meus pés. Andei sobre ela por um tempo indescritivelmente longo, que, por sinal, nunca cheguei a saber o quanto exatamente fôra. Depois fui para casa; mas era outra pessoa. O dia que para mim começou assustoramente péssimo, agora se revelava um grande prazer de viver. Abri a porta e entrei. Abracei minha mãe, tomei um banho e fui me deitar. Esperava que o seguinte fosse ainda melhor. E foi. E o próximo, o próximo… Tudo por que me dei conta de quem eu realmente era, o meu propósito e minha missão.

Aprendi que não podemos prever o futuro. Não podemos lamentar pelo que já é passado e nem sofrer pelo que ainda não aconteceu. Devemos lutar pela esperança de que o que virá será melhor do que o que já foi. Pois quando achamos que um dia será catastrófico, na verdade, pode ser nesse dia que recebemos a melhor notícia dos últimos anos; esta, que irá fazer com que os próximos sejam muito melhores, consolidando, enfim, um sonho tão importante.

Chegou o inverno, minha estação favorita. À tardinha, o vento gelado soprava sobre meu rosto. A chuva caia intermitantemente. Estava ensopado, mas sentia a leveza dentro de mim. Olhei para cima e sorri. Agradeci. Passei a mão no rosto para tentar tirar um pouco da água que agora já corria em todas as direções. Olhei pra frente e me vi lá… bem distante. Não sei aonde, mas estava sorrindo…

Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009.

A Luta em Busca do Nada

•novembro 11, 2008 • 2 Comentários

O vento soprava agressivamente sobre seus cabelos despenteados e maltrapilhos. Seus olhos úmidos apontavam para o nada. A direção que ele percorria não dava a lugar algum – ou se dava, ele não fazia questão de saber. As roupas rasgadas, o sapato furado, o boné surrado; era esta a figura que vagava na melancolia da noite, sob o frio de congelar que penetrava nas suas veias como a luz do luar atravessava seus olhos.

Não muito tempo atrás, aquele mesmo indivíduo acordara numa manhã ensolarada de domingo. Um dia como outro qualquer, não fosse o fato de ser seu aniversário. Ninguém aparecera. Ninguém telefonara. Ninguém se dera ao trabalho de mandar-lhe um cartão com os “Parabéns”. Não era pra menos: já não tinha mais amigos, sua esposa o deixara, filhos não tinha mesmo e sentiu que estava só no mundo.

Antes das dez da noite, o telefone tocara. Era ela. Não levaram mais do que cinco minutos no aparelho. Ela decidiu ir a casa e lá a conversa também não se estendeu. Foram, no máximo, dez minutos de discussão. Pegara suas malas, suas roupas, seus pertences e desaparecera de sua vida. Incomodara-se demais com a traição e já não tinha mais motivos para aceitá-lo debaixo do mesmo teto.

A ganância foi lhe tomando conta de seus sentidos. Perdeu o controle sobre si mesmo. Não aceitava a vida boa que tinha com seu emprego maravilhoso, com sua esposa que o amava muito, com seu carro do ano e com sua casa de praia. Tudo para ele era tão insignificante, tão pouco, tão descartável, que ele sonhara alto, mas alto demais. Tanto que, para isso, enfrentaria sérios problemas no futuro.

Resolvera procurar outro emprego porque achava que assim se tornaria mais importante entre os amigos. Ganharia mais. Compraria um carro mais bonito. Seria mais querido, assim. Estava enganado. Tudo isso só resultaria em um grande desastre. Mesmo a contra gosto, sua esposa, recém-casados, decidira apoiá-lo e auxiliá-lo na incessante busca por um emprego melhor para ele. Ela desistira, mas ele não.

Era verão quando se casaram. Num campo gramado, decorado e ao pôr do sol. As cores do arco-íris combinavam harmoniosamente com todas as ornamentações. Até aquele dia fôra muito feliz. Foi quando tudo começou a desmoronar…

 

Sábado, 08 de Novembro de 2008.

Uma vida bem vivida

•novembro 4, 2008 • 4 Comentários

Enquanto não decido por onde começar, vou me deixar ser conduzido para este mundo mágico das palavras mesmo sem saber se nele vou me perder ou vou me achar. Mas isso não me preocupa neste momento. Minha vontade é só de passar para as palavras os sentimentos que se escondem dentro de mim.

Lá fora, a chuva faz meu peito despertar deste sono profundo, faz eu respirar profundamente o alívio da vida e a pureza desta existência. Posso sentir o delicioso cheiro que a chuva levanta nesse momento e, por isso, sou privilegiado com essa inspiração magnífica.

Certa vez, há muitos anos, li uma história que fiz questão de guardar em minha mente por toda a vida. Dizia que todos nós temos uma espécie de árvore imaginária em nossas casas e que quando a ela chegamos, devemos depositar todas as tristezas e problemas nela. Assim, entramos em casa limpos e puros como se nada tivesse acontecido e podemos receber nossa família com um caloroso abraço.

No dia seguinte, ao sairmos, devemos encarar novamente aqueles problemas e aquelas tristezas. Mas se tudo der certo, muitos já terão desaparecido. Tudo isso faz parte do ciclo de nossa vida, envolve a responsabilidade de ter uma disciplina e organização, de ser extremamente racional nos momentos adequados e, é claro, de não deixar que a nossa árvore morra. No mesmo instante que ela é Tudo para nós, ela pode se tornar o Nada!

A vida é assim: em alguns momentos estamos bem, outros não. Em algumas horas, encontramos o vazio em nossas cabeças, em outras ela se mostra a verdadeira máquina do pensamento. A infinitude da nossa vida está no nosso cérebro e é lá que fica a nossa árvore dos pensamentos – o portão de abertura para cada dia, o desejo de que este seja sempre melhor do que aquele.

Para a pessoa que me ensinou o significado de disciplina, a amiga, companheira e professora Mônica de Fátima Rosa. A pessoa que me fez ver que o deserto não era o fim. Pelo contrário: é apenas o começo de uma longa jornada, e aponta para vários caminhos…

 
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